segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

INDIO NEON
[desenho da capa: Irael Luziano]

Livro
de
Edu Planchêz--------------------------------------------------------------------------------
"O espírito de um homem ganha liberdade
somente enfrentando a mais terrível adversidade"
(Daisaku Ikeda}

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Faço o que gosto
Parafraseando o poeta CHACAL:
- “Muito prazer, EDU PLANCHÊZ!”


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Duas ou três coisas
sobre EDU PLANCHÊZ

Jean Cocteau disse que a poesia é “uma maldição”. Edu Planchêz cumpre essa maldição de todas as maneiras existenciais, um salto no escuro, assumindo todos os riscos. Ele é um ser poético e não apenas o “poeta” rotulado nas igrejinhas literárias. Edu assume o viver a poesia, assim como um Ezra Pound pop. Enjaularam Pound. E os imbecis de plantão certamente que também gostariam muito de pôr Edu Planchêz numa jaula para poetas loucos e demais “Bichos” perigosos ao sistema. Conheço Edu Planchêz de longa data. Sempre admirei suas propostas e happenings pondo a poesia pra circular nas praças, ruas, bairros e gentes. “Um livro de poesia na gaveta não adianta nada ” disse Sérgio Sampaio, poeta e compositor que morreu na contra mão da mídia. Edu e seu movimento “Celebração ao Renascimento do Poesia”, levando poesia aos espaços abertos da cidade, são necessários. O “Índio Neon” é o próprio Edu Planchêz, nu com sua poesia (como Caetano está nu com sua música) e atirando bombas de neon a quem interessar possa.
Uns se queimam. Outros brilham. “quanto mais purpurina melhor”(Gil).
Há qualquer coisa de Jim Morrison em Edu Planchêz. Jim Morrison morreu de uma possível overdose, numa banheira cheia de espuma, em Paris, cheirando o pó da poesia. Edu respira poesia pelas narinas, pelos poros, pêlos. É um animal poético de versos livres, soltos, às vezes tão alucinados quanto os versos de Jim Morrison, certamente um dos maiores poetas do século XX. É da maior importância que Edu publique um livro de poemas. Porque a memória de sua loucura poética corre sempre o risco de “perder-se” nas esquinas e becos do cotidiano. “Índio Neon” fica sendo um registro das andanças, veredas e caminhos de Edu Planchêz, que já rodou mundo como sacoleiro da poesia, seja no Rio, Sampa, São José dos Campos, outras gentes.

Dailor Varela

DRAGÕES E ANJOS DO SOL



Nos anos 80 era moda, no Rio de Janeiro, a palavra “performance” e “recitais de poemas”. O inquieto Eduardo Planchêz subia aos palcos, de pijama, e recitava a noite inteira, muitas vezes até sem roupa. Com muita influência dos Beats e também de Jim Morrison, Edu foi preparando seu travesseiro de poemas. Naqueles anos 80 ele estava muito ligado ao esoterismo e às cartas do tarô. Passeou pelo Santo Daime, desbundou de vez e, parece que nos anos 90, depois de tantas bordoadas, passa por uma calmaria. Edu Planchêz foi a única pessoa que conheci que saía de casa vestido e voltava sem roupas e descalço, às vezes dava tudo de esmola. Se a poesia de Edu não revolucionou o mundo, pelo menos suas fadas, bruxas, dragões e anjos do sol revolucionaram “sua turma” e sua família. Para os íntimos, Antônio e ‘ovelha loura’. Talvez a sorte do poeta Edu Planchêz tenha sido lançada muito cedo, talvez em outras vidas. É muita sorte ser poeta uma vida inteira.

ROSA KAPILA

UM PROFETA ANUNCIADOR ( Jorge Mautner)


Este poeta Edu Planchêz é como a sua vida. É um neo kaótico romântico sincretizador e sintetizador de lirismos tropicais e pré e pós tropicais. Tem absoluto senso da tragédia e da comédia, seus poemas são irados e apaixonantes ao mesmo tempo-espaço. E tem mais: sua vivência absorveu várias influências tais como as da Megalópolis do Rio e da Megalópolis de Sampa. Mas o que mais me impressiona é que em suas canções-poesia existe igual influência de todas as suas vivências pelos interiores desse país continente. Ao mesmo tempo-espaço ele é um profeta anunciador, um panfletário que retoma a grande tradição da poesia recitada interpretada e cantada em público, como cerimônia de jazz. Utiliza inspirações que vão do mais profundo caipirismo e sertanismo, até o mais absoluto futurismo anunciador da Nova Era!!!
É um poeta ativista, e isto é muito importante porque, não satisfeito em escrever e publicar versos, ele é um ativista cultural que trabalha pela revolução cultural desse país-continente, organizando e liderando passeatas e cortejos poéticos e musicais e teatrais pelas cidades, assim como fez no dia l4 de outubro de 1996, na cidade de São José dos Campos, em aliança com a Fundação Cassiano Ricardo, e da qual fiz parte.
Ele é um dos mais importantes e ativos arautos da revolução cultural do Brasil universal!!!

JORGE MAUTNER


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O LIVRO

REI LINCE


Um lince rosna-me nos olhos
Um lince caminha pelas encostas do meu crânio
A cidade que se prepare
A cidade conhecerá o canto felino dos meus tratados

Ouçam criaturas... O sino das árvores estão a soar
O sino dos espíritos badalam...
Teremos uma festa eterna
Os sinos dos olhos hão de acordar nesse momento

A cidade mágica é a minha boca de açaí

Um vento cintilante jorra de nossas pupilas de vento
Um vento cintilante jorra de nossos sexos de vento

Ah, homens! Ah, mulheres!
Por quê não arrancar os olhos doentes?
Por quê não mudar de nome, de cara, família,
de sexo, de pele, de cidade, país, de planeta,
de sistema, galáxia e de roupas?

Ah, homens! Ah, mulheres!
A lucidez das frutas
apossou-se dos meus dias comuns
Lucidez, a única fonte limpa

O lince dos ventos apunhalou o meu sangue
O lince dos ventos caiu em todos os sangues

Filhos da água
Filhos do fogo
Filhos da terra
Filhos do ar

Eu vos convoco, espíritos da sabedoria
Eu vos convoco, espíritos da felicidade
A noite violeta está apenas começando
Adorados linces
Visíveis ou invisíveis
Nascidos ou ainda por nascer

(edu planchêz)

22 DE DEZEMBRO DE 1995


Edu Planchêz
Um jovem poeta de 36 anos
Absolutamente encantado com as flores &
primeiros frutos de um pé de maracujá
plantado por suas lentas mãos

Eu
Edu Planchêz
Juro cravar as unhas do sol
no lombo dessa terra escura

Provei o vômito da loucura
sob o efeito dos amargos comprimidos
Estive no pátio do PINEL & do Sanatório da Tijuca,
e não achei nada engraçado,
Encontrei pessoas carcomidas pelas engrenagens
da ambição desmedida
E tome Aldol-Gardenal-Diazepan...
Três dias e três noites amarrado a uma cama de triagem
Muitos ali como eu
despencaram de suas camas fissurados por eternidade,
mal orientados
( nossos mestres tinham perdido as chaves),
fomos nos afastando da realidade da vida,
das pessoas, das coisas & mergulhamos no fel do egoísmo

SE A FLOR DA LUZ EMERGE DA LAMA,
DE VOLTA À LAMA!

Hoje não mais evito as pessoas e os fatos
Se as pessoas são sujas quero me sujar com elas
Conheço teu cabelo amarelo Van Gogh
de longe e de perto
Tudo aos amigos!

Eu
Edu Planchêz
Um jovem poeta de cinco bilhões de Kalpas

Minha coroa de lírios
Meu trono de folhas
Amo o vapor barato dos trens que nunca existiram
Onde há vaga-lumes
há desertos futuros oásis
Seu magno brilho
derrama-se em minha pele negrinha

Você só geme no leme dessa arte sonolenta
Você só laça os furacões escritos no arco-íris

Toda uma linhagem de criaturas
transita aqui na memória

Nomes e mais nomes
Irael Luziano sempre Irael

À custa dos guardiões das estrelas e
da minha própria decisão
sobrevivo às mais absurdas intempéries

Eu
Edu Planchêz
Absorvo seu olhar bebendo chá mate
É noite, um pouco mais de zero hora
Componho esse poema para ser lido em alta voz
Componho-me

Edu monólito Planchêz
chamando das alturas de um poço

Pedras quentes poderiam recarregar
a carne selvagem de nosso coração nave

Busquei outrora o desregramento dos sentidos
Houve um alto preço por essa ousadia
Tornei-me
um homem-experimento-cavalo-da-poesia-gema-real

Por certo movo-me no corpo de um poeta
Por certo semeio lendas nas terras em que piso

Atiça esse fogo, meu caro amigo
chegado das pradarias de outras tantas histórias!
Marejou com o gavião maneiro de Deo Lopes
Navegou com o ímã das almas curiosas,
ao vento, aos acordes preferidos de Xangai

Minha mulher Marilza dorme
A cadelinha Vanderléia observa algo
Meus pés no cimento do verão do sul hemisfério
Imagens da neve de dezembro de New York
Pessoas, patins, censuras e sensores
Almas totalmente abertas no corpo a corpo,
em meio à guerra absurda
e ao orvalho do homem integral

Meus pais dormem,
meu irmão caçula e sua companheira grávida
fazem o mesmo

Escrevo esse poema bálsamo selvagem
elixir para o nosso sangue eternamente grávido

Maravilha nascer e viver numa época tão conturbada,
apinhada de demônios
Era de Mappo, campo vastíssimo,
repleto de motivos para lutar
Viva a luta!
A luta travada através
das canções
da Renascença do verdadeiro espírito humano

Meu gelo no teu gelo
Meu sol no teu sol

Edna Laranja e Isabel Mar de Egeu
Passando por essa Angra dos Reis
indo fundo na cidade do Rio de Janeiro
Volto aos nomes e são tantos os nomes
e são tantas as bocas beijadas e ainda por beijar
“Alma Corsária”, Carlos Steinberg

Cinema maravilhoso de nossos novos amigos
Cristal líquido
Tecnô-chinês
nas telas atlânticas
Gotas de todos os mares pulsando agora
em mim e em você
meu amado-amada

(edu planchêz)

A FESTA DA COSTA LESTE


Há tantos anos folheio "CEM ANOS DE SOLIDÃO"
e nunca chegava a coragem para devorá-lo
O tempo é chegado, as primeiras páginas...
Gabriel García Marques, um colombiano?
Nas minhas simples contas, mexicano
Como Sócrates nada sei
Possuo nada mais que algumas
noções gramaticais e...

Na verdade nunca
me interessei pelos estudos obrigatórios

Vejo Raul Seixas tangendo a môsca azul
para a noite das estrelas compactas
(CD's, Fitas e os velhos discos)

Aposto num "pop florestal"
A vitória régia me seduz
e o neón me induz aos palcos
A cidade no mato
O mato prateando meus pés

Não creio que isso seja um poema
Ao mesmo tempo confesso minha majestosa vaidade
A música exerce um papel-fino em meu diafragma

Seguro meu pênis,
Vontade de me masturbar sem nenhuma razão aparente
Nu sobre uma almofada em cores quadriculada

Sobrevivi a tantas chuvas-fraturas-expostas
Sobrevivi
Rock
Elvis
Pepitas sonoras se desintegram em minha cama
projeto da luz
Rock
Forte jato de almas cantoras
impregnando o esquálido teto da casa que me abriga

Rock:
mil páginas para ele

A consciência me chega
O que é ter uma vida voltada apenas para os prazeres?

Chamo o poema
Ouço minha voz
"HOPW!"

East Village
Parque Novo Horizonte
O Uivo mais secreto de nossas casas
A folha que se entorta na máquina

Edgar Allan Poe merece o cantar de Chico César
Eu mereço a sintonia absoluta com o centro vital do universo

Deuses celestes
Poetas banidos voluntariamente das academias de araque
Esses santos são extremamente magros
e suas catedrais por demais fedorentas
Sacerdotes que abandonaram o mundo coberto de "lama" para tentarem florir longe das pessoas impuras (em seus julgamentos)
acabaram perdendo completamente o humanismo
Ninguém merece tal coisa

A única ave
que se atreve ao sol
sou eu a borboleta inesquecível

Brasil
País cravado na vagina da América do Sul
Esse é o meu pedaço de planeta
Tal grão
Tal grau de latitude zero

(Ouço um sax negro, é a voz noite de Louis Amstrong)

Brasil de meus sonhos
Aqui ejaculo meus poemas
A qual América pertenço?
Brasil meu reino absoluto

Afino-me com a África pigmentar
e com os flamingos da Índia

Um vulto moreno negro aterrissa dançando
em todas as partes dessa escrita aromática

Batuca um blues, meu caro condor!
Batuca uma rumba, minha sariema!

Madrepérola da madrugada alçando um vôo atonal
sobre nossos colchões de todas as Américas

Aterrisso nessa escrita com os oito passos de Sensei

Vejamos o piano pousado
no platô daquele penhasco de Pompéia

O poema rei se entope de rock
e cospe o fogo do embrião estelar
nas bocas dos pássaros que somos

Nosso reino, essa terra de frutas-pessoas
De coração para coração
De flor para flor

As flores nascidas na lama da miséria
alcançarão a magnitude de um sol
(Se lutarem convictas,
nos garante Sensei)

Em frente!
A montanha inoxidável nada representa
diante da determinação de um guerreiro iluminado

Vinde pássaros que sou pássaro,
projeto único de minha natureza profundamente humana

A flor que enfrenta sua miséria alcança
a magnitude de trinta bilhões de sóis

Estômago vazio, zero centavo em algum lugar
Duas latas para mantimentos
de alumínio prateado pousadas na mesa
Um mundo gigante acima e abaixo de meus doces pés

Nada de solidão
Cobranças, cobranças e muito mais cobranças
Do pai, da mãe, da ex-mulher,
dos irmãos, do atual sogro,
de mim para mim e do Estado

Meu pai comprou um GOL do ano
Minha atual mulher diz
que tomaremos água doce para matar a fome

Hoje estou a dar risadas da fada miséria
No calendário cristão é natal
Alimento-me de música
Sopa de música fumegando colcheias
sobre os telhados de toda a vizinhança
Música ralada enfeitando o macarrão invisível
Música roncando em meu estômago
Mastigo música
Bebo música
Peido música
Mijo música
Cago canções geniais dignas de um Mozart urbano,
urbóide, um bode, uma cabra, uma cobra, um leão,
um tiranossauro rex pra lá de gliter,
muito além do peso do mundo cético
que gentilmente me cerca

Acho que sou gênio e que a fome é linda
Nitiren diz que o que se passa nesse mundo
é apenas um milésimo do que passamos no outro
Então me mostre razão para lamentações

Eu que já cuspi sangue de demônios
de todos os céus imagináveis
cuspo música

Led Zeppelin/Rock/Reggae/Frutas/Flautas
Violões pratificados de terra sobrevoam
os móveis da sala,
diante do meu oratório
Budas vindos de todas as direções do universo
ouvem a música maravilhosa
que nos embala para o sempre

SJCampos/Parque Novo Horizonte
24 de dezembro de 1995


(edu planchêz)

”LÁ SE FOI MEU DIONÍSIO MORAR NO MONTE GINS”...


Allen Ginsberg morreu,
simplesmente cerrou os olhos
e quebrou a concha do corpo
deixando para trás as tempestades do planeta Terra,
caiu sobre si mesmo na neve de inverno
& rodopia na chuva numa grande roda de luz dourada

A última palavra, que ele pronuciou,
o silêcio das estrelas humanas engoliu
Um homem que morre fazendo poesia... O que dizer?

Allen Ginsberg “perdeu seu corpo”mas tem o meu
Um dia não terei mais esse corpo
mas terei o corpo de meu filho
Allen,
em que América o navio de Homero aportará?
Trago sementes de sangue novo,
sangue de Ginsberg nos rios formosos
de meu corpo agora de Allen

Infalivelmente a poesia renascerá,
isso nossa intensa juventude garante
Duvido que Allen tenha morrido,
Allen Ginsberg nunca morrerá,
algum de vocês duvida?

Se a chuva cai, Allen cai com a chuva
Se um vulcão cospe fogo,
Allen é esse vulcão
e todos os outros vulcões que existem,
que existiram e existirão

Não há uma única estrela
que não seja os olhos de Allen

O corpo físico ficará demasiadamente pequeno
para caber sua grande alma girassol
Todas as palavras que Allen Ginsberg
pronunciou em todas as suas existências
giram em torno da minha cabeça,
de meu pescoço, do meu ventre

Nossa irmandade ultrapassa
os limites da eternidade
Não seria o que sou
se não houvesse encontrado o velho Allen
com sua barba montanhosa pétala do grande girassol,
um dia naquele pequeno apartamento no Bairro de Fátima,
no nosso Rio de Janeiro

Quantas noites levei você para a cama!
Literalmente,
provei o sumo de sua alma e seduzi outros a provarem
Não seria o mesmo se não me chapasse de girassóis

Viver como você viveu
é o que almeja o coração do planeta
para todos os pássaros humanos

As ruas desse país hão de se encher
para sempre de flores nos cabelos

A alma desse país Brasil Terra
usará um chapéu de poesia

Mantos de estrelas
percorrem os corredores dos arranha-céus,
caramelando nossas bocas
com o látex sagrado do tesão absoluto!

Viva o nosso poder de transe perfeito!
Viva os berros do mar dos malucos por vida!
Vivo a mais intensa das paixões
com olhos cheios de primaveras boreais
Sinta o perfume da flor
que ainda não nasceu
na flor-de-lótus do sexo de Allen Ginsberg

(edu planchêz)

VITALÍCIA



A vitalícia carne
vinda da fruta mais próxima
nutre a continuidade
de meu jovem sonho

Escrever é uma compulsão,
necessidade, vaidade, missão, ou ...
Para quê e para quem escrevo?

Meu jovem pai teima em não querer
compreender a vitalidade dessa entrega
Vastos pássaros se inclinam no átrio
e tendem alcançarem o nosso fígado diluidor de torrentes

Veja, estou nu
e você pode ser minha roupa, ou melhor,
esqueçamos as roupas e embarquemos
na nudez intensa

Númem cá está
Nunca
Nada
Asa
Água

Pingos de luz vazam dos outonos de nossas orelhas
A boa boca plasma outras pedras-palavras
para lavrarmos os verdes anéis
da grande festa

Podemos desenhar nas mãos de Vênus
ou de qualquer outra ave
Se não dispor do dom do sonho
como diluir os demônios desse suposto fim?

As pirâmides primeiramente nascem
no fundo do espírito humano
para depois ganharem o chão da vida

(edu planchêz)

FÓSSEIS COBERTOS DE CÊRA



Fósseis cobertos de cera
perambulam pelas esferas da infância das plantas
que ainda nem nasceram
Um dia minha barba ia ficar branca e ficou

Desenrolando meu cérebro
para me enrolar
no tapete de onze-horas cor de vinho do porto,
estendo as velas de um tempo
para aprisionar num bom sentido
os ventos que vieram dos Andes de muito antes...
é o mesmo que encontrar Mercedes Sosa
plantando avencas

Com um sol em cada vértebra
da coluna vertebral
Componho a canção diamante da juventude

Plumas e flores
Vivências douradas dos muitos anos
que passei desenterrando tesouros

Foram pontas de vidro, espadins,
cravos, milhões de espadas e facas
Mas no fundo da gruta dos escorpiões
havia uma dama cheia de vida

Eis o Ar desse agora
Eis as dancinhas que ora ensaio
Foi jogando pedra no lago e anéis no céu
Foi arriscando, jogando palavras no papel,
cantatas absurdas
(e como gosto dos absurdos!)
que estendi por meus olhos cardumes de canções

Gosto de chamar as canções de peixes,
e não me pergunte o porquê
Gosto de estar nu sobre a cama
enquanto meu gato amarelo compõe algo amassando
o lençol como se amassa pães crus

Olho para as pessoas e as vejo no futuro,
mais gordas, mais velhas ou mais magras
Gostaria de me olhar e me olho

Em minha aventura humana
inclui-se o ser popular arrebatador de multidões;
diria que sou Quevedo, e nem sei se Quevedo
era assim; diria que sou Mick Jagger
e não sou Mick Jagger,
mas encontro razões na flora e na fauna para o ser
Sempre quis ser o novo,
a novidade, o centro das atenções e o sou,
fato absolutamente natural
para um carioca de Jacarepaguá
que pegou carona nas embarcações do Rock
e nos comboios das Escolas de Samba
Depois de tanto viver,
ainda determino viver mais e melhor

Agora que sou mestre do meu nariz e das pernas
38 anos de desejos
Falta aprender tirar proveito da solidão
Desde os 21 anos que caso e descaso
A paixão é uma coisa que parece que vai e vem,
mas ela nunca deixa de estar ali como areia no fundo do mar
O farol daquele confuso filme do Walter Lima Jr.
sinaliza para os barcos
que ora vejo navegar aqui na sala
Aquela personagem,
aquela garota maravilhosa que voava
com as gaivotas está em minha cama
alizando os caixinhos de meus amados cabelos

(edu planchêz)

AGORA QUE ELA CANTA



Antônio Eduardo Planchêz de Carvalho
um homem do passado no dia de hoje
Uma tristeza tão longínqua respira arcada
em minhas janelas humanas

Na divisa da tarde ruiva com a noite relva,
no pêlo de um lobo, pantera, mocho e corvo

Trago o fígado da tarde-noite
para ser tratado pela água dos meus olhos

"O rio de Piracicaba vai jogar ‘almas’ pra fora"

Delírios de um ano inteiro
para um vivente dos temporais inusitados

Gostaria de saber escrever bem melhor
Gostaria de anoitecer agora, agora que ela canta

Primeira luz trazida
pelas lontras das chuvas eternas

Resta-me ser um único hemisfério
Pelo azul eu sou o meridional
Pelo canto do uirapuru esqueço
tudo o que disse anteriormente
e me oculto na floresta
Através dos vãos das folhas pardas
avisto luas-planetas- astros-estranhos
Construo poemas gigantes com os pés

Fôlego, é o que mais tenho
Meu fôlego de flores cobre todo o Brasil
nas penas de mil bandos de papagaios,
araras e bicos-de-lacre

Lágrimas de pedra precipitam-se
das dezenas de ossos que tenho:
olhos nos ossos,
nas unhas e nos cabelos do sexo

Peruca das árvores cobertas do orvalho
Antônio Eduardo, pai e mãe de todos os cachorros

Cipó-chumbo brotando dos botões do micro-systen
Nos resta um contrabaixo acústico cosendo
a fartura rítimica das últimas milhares de semanas

As bocas de mil Budas se abrem,
escorrem estrelas e o que não sei definir

Pássaros do breu, filhos de Allen Ginsberg
e Florbela Espanca

Minhas vistas violetas amam a gelatina
dos versos clitóris de Ana Cristina Cesar

A luminosidade da minha poesia
é um antídoto ao avanço neo-conservador
A luminosidade da tua poesia é um antídoto
ao avanço neo-conservador

Chamar Allen Ginsberg de senhor é sacanagem

A boa música é negada às pessoas
O Brasil “exporta” os seus melhores talentos
e os nega para o seu próprio povo
E nos impõe uma ditadura mental

Ninguém conseguirá deter
o grande renascimento da poesia
Ninguém, nenhum demônio careta
conseguirá deter o renascimento
do verdadeiro espírito humano

Que se dane que os "Marrecos da latrina"
venderam dois milhões de cópias,
o Brasil tem 150 milhões de habitantes,
não somos obrigados a engolir
esse e outros lixos oportunistas

Mediocridade se opondo à eternidade
Se esses aproveitadores
olharem para o sol (interno)
conhecerão a cegueira de suas pobrezas
E quem é que precisa de lixo?

Determino o renascimento do homem total
Homem, homem, nem um pouco Deus e sim homem,
profundamente integrado
ao movimento do planeta,
a partir do movimento de sua comunidade,
das pessoas que ali vivem

"É chegada a hora de reeducação de alguém,
do pai, do filho, do espírito santo, amém!"

Aquele que luta apenas
em prol de seu próprio benefício
está terrivelmente errado,
esse não é o movimento do universo,
essa não é a corrente do grande oceano vivo
Você, que se calou por pura conveniência,
deveria cortar literalmente a língua
e jogar aos porcos

Dinheiro, poder, posição, jogos de interesses:
que pobreza!

Os homens esqueceram que são pássaros

Tire seu velho sapato
antes que seja tarde
e pise o ventre de Mãe Terra

Dancemos voltados para a África,
para a Índia, para a Serra da Mantiqueira,
para extremo sul dos Andes

Rebolemos recitando os versos
de todos os poetas brasileiros

Nordeste
Sul
Centro-Oeste
Norte
Sudeste

Ali está a estrela Dalva
e as estrelas das constelações
Ursa Maior e Ursa Menor

Que tal um "Frevo rasgado"?
"OLHE BEM NOS MEUS OLHOS/OLHE BEM PARA VOCÊ/
O FATO É QUE/ A GENTE PERDEU TODA AQUELA MAGIA (...)"
(Oswaldo Montenegro)

25 de dezembro de 1995
Parque Novo Horizonte-São José dos Campos-SP

(edu planchêz)

LAGARTOS


Lagartos caminham
tranqüilamente sobre o chão das águas
Tranqüilamente
retorno à minha voz e à vida

Período difícil
vivenciado por minha criatura,
ao fundo da terra fui
a fim de compreender algo

Herói na frente do espelho,
amigo de meus próprios ossos

E o vasto raio que não conhece limites
rasga para sempre as células da gaiola,
e o homem que correu de si mesmo
durante kalpas e mais kalpas
encontra seus pais

Vermelhas estrelas
Sereias estrelas
Um copo de leite,
pedaços de pão ainda quentes

A trajetória de um filho
estampada na pele do coração de sua mãe
Cerejas plantadas ali por mãos suaves
Seios-cofres de sonhos vitais

Tanta seiva jorrando em meio
à alegria dos irmãos
É a volta das brincadeiras
naqueles rostos agora adultos

(edu planchêz)

AS 4 MÃOS DE LARA DALETH E EDU PLANCHÊZ


Joelho na coxa
Há uma centelha de verão me amando
Na espiga que desce
vazando as vértebras,
descole esse Rock,
esse gozo ultra-poente
que nos come

Se zuni em teus múltiplos ouvidos
um pouco da gosma brilhante dos leões,
avança, que eu avanço
Emparelha tua quinta sinfonia
com o meu nono turbilhão
que verte pelas veias
o pêlo das lamacentas jibóias

Cintura móvel,
cilindro absolutamente azul,
é o fogo guerreiro das noites-fatias
Escrevo em teus seios
(com as mãos de Sherazade)
advinhas o quê?
Um silfo poema de fogo
em nome da foda doirada (Ô dorzinha boa!)

Clava dos mil trovejos fincada
para sempre no ar não mais triste
de tuas bocas adoradas

(edu planchêz)

CACHOS DE UVAS


Se cada um de nós é um mundo,
e um mundo não tolera salas fechadas...
Me tome nos braços até que eu desapareça, Hölderlin!
Desapareça com cara de coelho
de coelho verde
e patine comigo sobre os espelhos
eu e você e os peixes

Hölderlin, as aves da nossa dimensão inventam
seus próprios carvalhos com folhas de arco-íris
e flores adocicadas
e vêem a mulher dos nossos olhos se ajeitar
entre as uvas-nebulosas das terras deltas
de homens comuns irmãos das aves
Aves e coelhos verdes, nós, poetas dos homens,
acordados pela grande natureza invisível
Conquistaremos o vinho das paixões e o
derramaremos aos povos.
E das antigas cinzas tempestades de beijos brotarão
banhando de repouso os mansos bosques
E o corpo já não terá limites

(edu planchêz)

NO MESMO ÂNGULO DA ESTRELA D'ALVA


Na raiz nevada da nuca uma fera mastiga
o verme que mora no ouvido...

Bom mesmo, homens,
é dar as costas para o horizonte
e acender o cachimbo da lua santa,
e quem sabe, morrer no mesmo ângulo
da Estrela D’Alva, sem medo de reler
Augusto dos Anjos
e ver personagens na geometria das árvores

Talvez meninos se bolinem por trás das folhas,
enquanto suas mães abrem os botões da calcinha
para a entrada do leiteiro

E eu que sinto frio na subida da Mantiqueira,
na valise trago alguns CD's:
os últimos Rocks do vento,
baladas seculares que esquentam a pele
e mostram os fundilhos
para os Deuses-Demônios-da-neve

Até mesmo as meninas
que tranqüilamente urinavam
à margem do ribeirão,
entenderam a delícia dos meus escuros dedos
(quando estou nas areias, até formigas me excitam)

Falo a linguagem das vaginas calorosas,
fluente, visitado por cavernas cinematográficas
e outras maravilhas

Coisas ocultas que as horas da Terra esquecem
Coisas ocultas tal qual o barco dos Atlântes
rasgando o hímen do poema composto no banheiro
com o brilho de suas cabeleiras cor de estanho

(edu planchêz)

PENTELHOS BLUES


(para o menino Emanuel Rezende)



Nas primeiras horas da tarde
vou estendendo meu esperma
pelas folhas vivas da Costela-de-Adão

A chuva dá o compasso do frio,
minha mão pouco a pouco vai
tomando teu corpo de fotografias
(A primavera brinca nos espelhos)

Recordo dos cometas amigos desses dias
Irael Luziano, o mago das danças astrokaóticas
Poeta das ruas enfermas,
ácido se derretendo nas pedras da existência pagã

Rubens Spírito, mestre dos relógios,
lúcido vulto a debulhar a espigas do todo,
seus pés fedem a luz,
suas mãos tremem aos raios, é ele,
o fazedor de mosaicas lendas

Ricola dos rubros poemas amarelos,
segue solto nas neblinas,
rosnando farto de ventanias,
gozando nas areias das Eras-fêmeas
pronto para o vôo do Imperador azulado

Luiz Beltrame/tintas plásticas tela e ventre
/homem/mulher das tempestades no pomar/
seu país é república fuderativa do prazer/
dos dedos/da morte/ do incenso/ da Índia/
do índio/ do sul-norte do gelo/
do barro moldado com as pupilas do pênis

Irael Deus/ Diabo/ dama pálida/
dama de honra nas fumaças primitivas

Rubens Spírito/ dono do golfo e da baía/
alumbramento de pepitas gosmentas

Ricola, São José dos Campos
não passa de um meteoro de pernas/
seus cães imitam o uirapuru,
quando querem e fodem lobos/lobas/
Márcias de talco/Serpentinas/
Blake/ Allen Ginsberg/Mário Faustino/
Ana Cristina Cesar e o Topogígio

Luiz das galerias/
teu licor anda e pisca aos berros-pigmentos/
puras e manchadas noites
de eternos beijos orvalhados/
no rosto/no triângulo/
na boca abismos de vales e pentelhos blues

(edu planchêz)

ANUNCIAÇÕES

(Aos Cãs)

Folha de eucalipto/ Disco no pino/ Som no salto
Mulher nos joelhos/ Noite na noite/Caetano no jarro/
Janelas e visões/Enoke e Merlin/
Godard Lado Direito/ Rimbaud/
Cassiel /Sibila /Suzana Vargas e Verlaine/
Recife Recife Temperatura

Eu, sentinela das avenidas/
Bailarina alada França Planchêz
Frente à frente a Lennon/ Joplin/
Morrison/ Gil/ Pessoa/
Flor Bela Espanca/
Poeta Milton Aguiar nas almofadas
Copos de barro na mesa
Alucinações de sexta-feira/ Enunciações de Eras
Vareta chinesas e folhas de chá
Todo que sabes não enche um luar
Tudo que comes não move uma sombra

Rio de Jáh Negro/ O outro lado da praia
Rio de Jáh Negro/ O outro leão dos Atlantes
nada tão bem no olhar

Um fim de ano/ Um fim de círculo
Flores de hortelã e enigmas de natal
Onde me levarás Terra?
Onde nascerei pelos próximos dias? Onde?

Nu/ Morto nascendo pra luz
Nega/ Neguinha/ Marionete/ Teatro/ Rio Cine Fest
Vamos aos Cãs
Ao velhinho de bengala nos dedos
em frente ao mar
Nada de corrente/ Nada nas pernas/ Nos olhos/
No sexo/ Na alma
É o fim dos cadeados/ Tudo que quero é poetar
Tudo sem lógica

De boca em beco/ Feliz de pedra/
Brasil de Aquarius/ Brasil de gelo e fêmeas de neve
Negros de fogo/ Reggaes e Rocks/
Baiões e Índios Neón

Nova Raça/ Absurda é a dor/ Nova Raça/
Absurdo sou

Lambidos sejam Allen Ginsberg/ Tilopa/
Mauro Neme/ Irael Luziano/ Pedro Sumáia/Glauce
Ana Lúcia Negra Linda/ Rosa Kapila/ Marilza/ Cazuza/ Aurino/Serjão/Fred/Amanda/Sandra/John Dragon/
Maria Inês/Humberto Assunção

(edu planchêz)

NAVIO RABISCADOS


Em Witman ancoro pés
novelos e navios rabiscados
Mais de duzentas lagartas, imagino,
caminham no tapete

Segundo os filhos dessa aldeia,
“aquele que traiu o Rock
se esbanja cantando grudes italianos”

Se tenho silêncio nessa manhã?...
Pergunte ao nosso gato amarelo e real no sofá
e nos metais do poema

Em Witmam, amarelas construções
precipitam-se lúcidas saudando meu menino de engenho

Se caço o bagaço da cana cósmica com a parabólica
da cabeça de cuia, somente o Brasil pode dizer,
somente o cavalo estanho e sua égua
me fazem ver a extensão
dessa praça primeiro de maio
com todas as suas silhuetas setentrionais

Mais que milho tonto
quando se entorta na feitura da pipoca,
sou eu, ouvindo as invenções de Tom Zé.

Megas rincões providos
de esquálidas árvores de cedro
Voltando à onda original
Voltando ao castelo estranho
colado nas costas do crustáceo irmão da ameba

Centauro-ave-pré-histórica-brontosauro

A verruga que se deu em poesia
crescia no magma da pré-civilização
Nada mais estranho
nem mesmo o amor dos escaravelhos
revolvendo excrementos

Gosto de ver e vejo gavinhas
de duplas folhas saindo do chão
e se enrodilhando na base dos pêlos do meu corpo

Gosto de ver e vejo aviões
entrando e saindo,
navegando em tua vagina-aeroporto

Aviões em meu pescoço-caule-de-sequóia

Me remeta umas letras de qualquer planeta

Sem te preocupar com o breu dos enganos
teste teu batom e teus lábios
nos lábios das minhas invenções
Se teu breu abraça meu transe, nada se esconde
e se esconde, e se esconde, e se esconde

12 abril 96 (12h24min)

(edu planchêz)

BRAÇOS DA SAUDADE


25 anos se passaram desde a última
vez que cantei no banheiro
Tenho medo do tempo,
do tempo que me deixou mais velho,
do tempo que levou Elis para os braços da saudade

Tempo
remédio e veneno para os que andam
( sem relógio?)

Depois de ouvir Elis
poderia morrer

Muitas mortes ( as minhas)
marcadas com riscos de grafite
na coronha desse papoamarelo
do capitão Corisco

Muitas mortes ( as tuas)
sangradas nas antemanhãs
de todas as bocas desse tempo canibal

23 de março l998
(edu planchêz)

LINHAS


Aquelas linhas soltas enlaçaram-se
nas pernas das árvores
E aquelas linhas de mim mesmo
caminham pelas ruas da tua cidade,
cidade essa (a tua) de homens-peixes
voltando para o mar ou mesmo para os rios,
para os rios subterrâneos

Aquelas migalhas de chuva ainda palpitam
nos degraus dos meus ombros
réplicas da pirâmide de Quéops

Zero hora ou mesmo um tempo mineral
submergido nas camadas quentes
das cambráias da pele

Vento vindo de um ventilador doméstico
Um filme brasileiro abrasivo na TV:
"Os inconfidentes"
José Wilker / Paulo Cesar Peréio...
Obs.: Menti anteriormente,
são onze horas e cinqüenta e cinco minutos
03 abril 96

(edu planchêz)

ROSA TURVA


Espelho à esquerda
Espelho: o lago de antigamente

Resgato o rosto das flores
num tempo dedilhando aqui dentro
(Muitas vezes me refleti em ídolos de papel)

Permita-me Senhor Ser do espelho
escorrer por entre suas fendas,
cair no olho da chama
de minha adorada

Cata-vento dançando
na quilha quadrada do veleiro (que sou)

Raios disparo
para me desprender das cidades
soterradas sob as camadas de minha crustácea pele

Não precisava erguer o absurdo poema
em cuja rosa flutua o sono da cidade

(edu planchêz)

ÉRIC CLAPTON E A PRINCESA MAFALDA



Êta gemedeira saída dos gomos dos dedos...Dele,
Deus-andante-cavaleiro-do-pomar-elétrico

Éric e a princesa Mafalda entornam as taças frias
no teatro dos dedos dilacerantes

O Deus da guitarra nasceu no dia de hoje,
encendeiem todos os castelos da Grã-Bretanha

Os panos rasgados entrelaçam-se
em torno do corpo da guitarra-sempre-úmida
E a princesa Mafalda?
À vemos nos acordes-sacis
cortar planícies e prados,
à vemos ali desfolhando aquela revista
encharcada de blues

O Deus cresceu semente sampleando
nossos rífs-ventres com falas radioatômicas

O dia do Deuzinho mastiga a saia da princesa

30 de março de 1995 (Aniversário de Eric Clapton)

(edu planchêz)

BARRIGA VEGETAL


A Grande Mãe Batata
dilata os cordéis
de sua barriga vegetal
e dá à luz o magnífico sistema solar

Pedras quebradas
quedam pontiagudas
dando origem às montanhas
e aos narizes das bailarinas
Ana Botafogo,
é ela pisando nos pingos de uva

Os luminosos números do relógio-rádio
A chama laranja da vela branca
A porta verde-escuro do banheiro
A caneta verde-alface usada para registrar
essas palavras, partículas das verdades
espalhadas pelas faces do quarto
das paredes caiadas

O cal é branco,
lembro-me ter visto pedras de cal
exibindo fragmentos de enxofre
em sua bruta composição
numa barreira do Rio de Janeiro

A arte nos redime
Tenho fome de sexo,
sexo de mulher bonita
e não acho que isso seja insensatez

Observo esse Anjo de tantas patas que
come suas irmãs
Há noites-dias que sou um lambedor de flores
e todos os outros bichos
do zodíaco ocidental e chinês

Uma Terra girando dentro da Terra
da minha Terra
Outras Terras também giram
depositando seus pássaros
em nossas cabanas da infância

Resgato a infância das borboletas
nas cavernas de Antônio Eduardo
As aranhas dos milênios
deixaram meu menino assustado
e esse susto perdurou por mil semanas
em espinhos de gelo

Sol, sol,
ouço-te profundamente terrestre
Uvas para Neruda
Uvas para essas princesas que me encantam

(edu planchêz)

RECONHEÇO QUE ESTOU NO FIM-COMEÇO


(Ao ator Reginaldo Nascimento)


Da névoa ergue-se o homem
& seu quebra-cabeças
Um braço em Jacarepaguá,
o outro no sul da Alemanha,
um pé mergulhado no Índico,
o outro beijando a Baía da Guanabara

A poesia vive disso;
estilhaços, cacos,
frangalhos & rupturas

A força para unir sempre dança
no assoalho-coração-de-ladrilhos

Ouça o tom da canção insistente...
Ouça o esforço que faço para me manter vivo

Foi rolando pelo lombo do mundo
que perdi e encontrei ilhas

Maré alta alternando maré baixa...
Esculturas d'água armadas por olhos escultores

Reconheço que estou no fim-começo
Contigo partilho o sabor das frutas
que nascem em minhas mãos ligeiras
Contigo construo a antena
para captar o raiar dos mormaços

(edu planchêz)

DAS ESFERAS


"O aprimoramento endireita os caminhos
mas as sendas rudes
e tortuosas são as sendas do gênio"
(William Blake)



Fragmentos que derivam tão somente da alma,
vivo na fronteira dos tempos
Ventania flamejante,
faça-me voltar à tona,
cruzar o colosso,
ser navio e a loucura do perfume

Entre na afinação das esferas,
adorando o espírito que me habita
Se sou invasor, toque logo as trombetas
dos meus cabelos enigmáticos
Não vejo limites nesse incêndio

"Um gato silêncio atravessa a rua"
E eu apago as linhas do mapa-múndi

Se Ginsberg estivesse aqui
nebulosas despontariam
de nossos dedos de condão

Orientes e Ocidentes espalhados
A falta d’água é breve
Temporais ruirão do vazio
carregando os mundos da margem

Centenas de pétalas
lavam o ar melancólico
Ainda tenho minhas asas!

E no gemido da janela
move-se um Rock úmido
E a sombra do poeta
singra pelas areias juvenis
do deserto costeiro

Agora sou um pré-inca
Resta saber se escavando paredes
encontro as relíquias prometidas pelo Sol

(edu planchêz)

OS MIL RENATOS



Encontrar riquezas na passagem
de um aliado para a outra margem
O que destoa é esse bago amargo que o fim nos lega
Ver beleza na morte de um amigo
Ver além de ver, ver
Ver além da minha morte
Ver além de ver, ver
Hoje estou calado respeitando o sono das árvores

Eu e Mautner nos falamos ao telefone
bastante comovidoscom a partida
do Renato Russo
O que fica e o que vai se desintegra nos penhascos
Morre um nascem outros: somos todos Renatos

O que fica é a imagem de um alce
bramindo moléculas de sangue aos ciclones
O que fica são esfinges se contorcendo no absurdo
da pálida lua de um outubro antigo perdido entre
os dígitos do voejante calendário

O Brasil que salta dos furos
provocados pelo breu das guitarras
que nunca saíram da chuva,
se entreolha, mirando os mirantes ora ocultos:
São olhos mamelucos aturdidos atarantados
diante das saraivadas
das balas malucas do papoamarelo

Rostos absolutos entre o sono
e o estar desperto se negam imantados:
é a ditadura eletrônica hipnótica
pantomima apodrecida vaporizada
pelos falsos reizinhos estagnados
no pântano televisivo do lindo Jardim Botânico

Os mil Renatos cravarão suas unhas de ouro
nos lombos dos tótens marionetes da grande farsa
Assim como o sertão vai virar mar

(edu planchêz)

SANTO SEM ASAS


Santo-sem-asas
Homem-Leão
Habitante de qualquer terra
Suas asas, minhas pernas
Sua cama, a Flor da Lama
Santo-sem-asas

Homem-marinho anfíbio esquadrinhador dos céus
Uma estrela em cada canto do papel
Quatro meninas nuas na luz que tudo transpassa
Quatro cenouras azuis no chão argiloso dos cantadores
que conhecem a noite morta

Meu profeta aflorado na Paraíba
Meu peixe-de-asas
Criaturas fincadas na dor nossa irmã
gotificam-se no filtro da morte
e são multiplicadas no conta-gotas do homem
para alcançarem a fornalha da mulher
e retornarem à vida
(tudo continua)

Jorge Mautner
Zé Ramalho
Charles Baudelaire
Três corvos exterminadores
Três ou mais sombras sobre nossas casas

(edu planchêz)

A MORTE DA IMPERATRIZ


A morte daquela aranha era minha
Parece estranho, mas essa é a verdade

O guerreiro Arjuna
tinha em suas mãos a morte
de seus primos facínoras

A rainha verde e preta vivia
entre a laranjeira
e o pé de tangerina,
bela e aterrorizante
Fizera um véu de teias gigantesco
capaz de aprisionar
os que ali cruzassem
Diante da letal ameaça
tive que optar
entre nós e a imperatriz

(edu planchêz)

VERMELHA

(ao Mautner e a Dailor Varela)


A página vermelha
da outra história que os insetos do homem
não contam se abre
para a leitura dos que não sabem ler

Ponta de estrela
com ponta de estrela
Ponta de olho com ponta

Vês que o sol dos sóis se abre
e os até então cegos conhecem
o marco da luz laranja

A página das páginas
inscreve quatrilhões de silhuetas
a doida avalanche de teus beijos

E me digam que o poeta
é senhor de campos pálidos
que não passam de palavras

Divisor das águas desse mundo
Divisor, andante cavaleiro de violetas
e avenidas azulejadas
A página das cores rápidas
o olho comum não pode ver

(edu planchêz)

"EU QUE NÃO ME SENTO NUM TRONO DE UM APARTAMENTO COM A BOCA ESCANCARADA CHEIA DE DENTES ESPERANDO A MORTE CHEGAR"...



Em minha pequenina máquina velha e quebrada
concentro o que há de centelhas em mim

Dias difíceis(Bom que seja assim),
vivo a curva de minha aventura
Mantenho e manterei os pés fincados
sob a corrente dos acontecimentos
Nada será capaz de desviar-me de meus intentos
Em minha mínima cama
recebo o ABC para desfiar esse dia
Mãos aplicadas assentando o homem no trecho fluente
dos sonhos básicos

"Mesmo sol de Granada"
"Acordarás com meu grito"
Obriga-me o sol a sair ao encalço da forragem do estômago
São fagulhas de arroz esculpidas no lenho do feijão
O Brasil pode contar com a habilidade
desses dédalos experimentados
O experimento meu guia conhece a aritmética da cidade
erguida pelo Sol meio dia
e será capaz de conectar o dia de hoje
com o Sol do passado
dissipador de nuvens de chumbo
O Sol princesa espoca na boca
e ganha as ruas dos Últimos Dias

(edu planchêz)

DETERMINO CRAVEJAR O PLANETA COM AS JÓIAS DA MINHA POESIA


Tristeza,
profunda tristeza (da busca humana)
Alma dolorida
Meu menino olha as flores e não se vê
Por que negar a friagem, está frio, e o que fazer?
Viver o frio! Querido frio! ...
O Mar do cartão postal exibe alegria
Preciso de alegria, de música,
das voejantes borboletas das valsas de Strauss
Morro nas pintas desenhadas nas asas das joaninhas,
nas hortaliças bem vivas que elas habitam

Cantarei a criação com os lábios dos olhos
Assim fizeram os antepassados
Assim faço aqui no presente Brasil
Ouço Reggae, e é muito bom ouvir Reggae
Determino (dono de novas forças) cravejar o planeta
com as jóias da minha poesia
Canto e o canto é tudo

(edu planchêz)

TUA NAVE VAGINA PELOS CAMPOS



Plantas dignas de varandas reais
tateiam as paredes da sala azul

Eu, uma aranha avermelhada,
Untando cortinas, múltiplas cortinas,
que encerram em imagens a odisséia
Pirata habitante de castelos cobertos de limo,
tua nave vagina pelos campos

(edu planchêz)

O VELHO WHITMAN SEGUE OS MENINOS FUJÕES



Um menino alourado debanda morro
a fora atrás de pipas,
mangas e bicos-de-lacres
A cegueira é tanta que ele não vê
o abismo das ventanias
Mas o menino não corre perigo
As barbas do demiurgo Walt Whitman são longas redes
onde aquele pequeno pode se agarrar e até mesmo deitar

O velho Whitman segue os meninos fujões
Daqui espio os passos melódicos
de um homem no século XVIII
Meu estômago almoça aviões de versos
Descrevo o semblante coral do homem
numa casca de maçã

E o leve Whitman conversa
com a ansiedade das cenas estáticas
-"Para o lanche temos ovos de dragão, suco de olhos,
beterrabas e brilhantes da China!"
Coço as pontas dos dedos a fim de gravar
os sinais do poeta nas nuvens da sala

(edu planchêz)

CORAÇÃO DO (MEU) PAU

(para ISABEL MAR e FRANCIS)

Nascer da minha própria barriga:
Jogar sapato em cachorro que rasga jornais

REVERSE:
Beijar a fuça, a boca do cachorro que rasga meus jornais
Será que vejo o rosto de meu irmão
no rosto desse cão?

Quero sair da minha sublime barriga
dançando um reggae
na barriga do mundo

Bate um bumbo do Senegal (na minha barriga)
Bate um bilhão de vidas
no coração do (meu) pau

(edu planchêz)

FLOR DA MENINA DOS OLHOS DE MINHA MÃE



Rolinha caldo de feijão
Gavião carijó
Canarinho da terra cantando em Dó sustenido menor
Sustenta tua coroa, ó sabiá do peito laranja pousada
no arco-íris do pé de giló!

Bem no cantinho do terreiro...
Bem-te-vi!

Trinca-ferro verde-escuro!
Me convidem para pular o muro
e sair nos quintais do Japão

Ouço o eco do grito do marreco,
vem lá das bandas da varanda
que fica em frente ao pé de pitanga

Antônio Eduardo é a rosa crescida no enxofre
O mundo Antônio Eduardo
pisoteia o "líquido amarelo do sol"

Outro ciclo de novas e velhas canções

Rouxinol vestindo-se de pétalas
Canário querendo um gole da noite safira

Em Amsterdã...
Lembranças cor de laranja

Frutas que tanto adoro
Flor-de-laranjeira
Flor da menina dos olhos de minha mãe

(edu planchêz)

MÃOS GRACIAIS


Mãos glaciais me aquecem,
posso compor os ideogramas
com a tintura dos olhos do gato
Tenho na retorta o "Morro dos Ventos Uivantes"

E você me fala dos animais que oram em suas cobertas...
Pássaros do antiquíssimo preferem os miados de Hendrix
às valsas brasilienses

Mãos glaciais merecem
as sopas de inhame
que preparo com os dedos das estrelas
Whitman é um inhame,
Van Gogh, a beterraba
Caldo de feijão recheado de sóis
(assados na brasa das ruas)

Mãos graciosas
Dela, Mariana oriental,
a bailarina dos sonhos reais
Essa cidade é mínima diante dos beijos que nunca lhe dei
Ali, numa das ruas da França, tenho-a na voz da cantora
que ainda não nasceu
Com uma das mãos no mar...
e a outra no mar entorto esse continente
e todas as outras terras do impossível

(edu planchêz)

APROPRIAÇÕES DA TV E DEDOS MEUS


"Este planeta morrerá em alguns segundos cósmicos"
"Viemos à Terra para viver"
"Manifestações do inconsciente"
"Após morrermos, voltamos à vida (terráquea)
para consertarmos os erros"

Dimensão (outra)
Bebi os muitos dos muitos venenos
para compreender as suas inutilidades

Eu sou indígena
"Nós temos um canal de ser para ser"

A obra
das obras
pouco significa
diante do homem revelado

(edu planchêz)

BARRO


Poemas de barro, poemas...
A toda hora e a hora nenhuma

Vozes de barro acessíveis
Aos relampejos dos crentes dedos
Bem no coração do barro nascem figos
e outras dimensões frutíferas

O coração dos homens estica e comprime
o barro alagadiço imantado às ligas da cútis
do barro dos homens e seus ossos de barro

Os"Filhos do barro..."
Os filhos copulam com o barro,
e o barro...
O barro berra bramindo bossas bisantinas
e outros blues

Barro Asteca
Barro-barro

Matéria-carne das maçãs do rosto
O barro da palavra vermelha (agora) ultrapassa
a linha dos pensamentos cartesianos
e se arreganha para a catarse do meu barro

(edu planchêz)

MAR DOS ANIMAIS



O vento da perseguição é uma corrente
para me levar a uma corrente mais alta
O sangue dos penhascos rasga o mar dos animais

Estou no antigo
Caminho dos veleiros
O equilíbrio está próximo
Meu filho me aguarda
Ele pode deixar o gatinho correr pela sala
e o meu chinelo aos pés da cama

O vento da perseguição é uma corrente para me levar
a uma corrente mais alta
O sangue dos penhascos rasga o mar dos animais

Estou no antigo
Caminho dos veleiros
O equilíbrio está próximo
Meu filho me aguarda
Ele pode deixar o gatinho correr pela sala
e o meu chinelo aos pés da cama

(edu planchêz)

TEUS SEIOS



Nas estrelas encostei: teus seios
Morre o passado
Morre o futuro
Brilha o presente
E vem dos céus o bem

Tudo nasce
E que mais pode morrer?
Tudo nasce
E que mais pode morrer?

A feliz melodia dos teus seios
gravou-se nos Cd's dos meus cabelos
mais gostosa ficas, de vermelho
Quando oro pros teus seios
congela-se o tempo

Teus seios flutuam em minha boca
Teus seios futuro em minha boca
Teus seios flutuam em minha boca
Teus seios futuro em minha boca
Nas estrelas encostei: teus seios

(edu planchêz)

SEIOS DA LUMINOSIDADE

( Para mim)

Enquanto pensares por palavras
Não conhecerás teu verdadeiro nome
Enquanto ouvires os ecos da rua
Não andarás pelos campos da luminosidade

És perfeito agora
Criaste este mundo
para o teu deleite
Os homens são Deuses esquecidos

Não, não sejas escravo das minhas palavras
Procura no poço dos meus olhos
Procura nas avenidas de tuas mãos
As saídas do labirinto

Quando rasgares a antiga couraça dos séculos
Descobrirás as sereias de tuas marés
Fontes alegres já existem aí
Teus dias são diamantes (Reparaste?)

Não te chamo de Deus
Não te chamo mágico
Porque inda não te conheces
Vives mergulhado nos muitos
Esqueceste do um

Só tu me interessa
Me sinto mãe de tudo
Mama nos meus seios de claridade filhos meus
Em mim desaguam nações

Só tu me interessa príncipe/princesa
Dessa Terra transitória
Estou escalando as montanhas pluricolor
de teu último fantasma

(edu planchêz)

SETE HOMENS


As sementes lua cheia
vão longe, bem além dos neóns
Quando os vultos se encontram
sob o signo da música
Algo de imensidão acontece
O dia se fez mãe e os seios da noite
estão eretos em meus lábios
Canções leitosas caem:
Flocos lunares!
Hum!!! É a idade do ouro!

Ah! violino que me excita!
O novelo da vida nos espera
As ruas clamam por nossos nomes
Nós, os meninos das matas

Ah, guitarra que me evoca!
O beijo dos teus dedos
trouxe a madrugada das princesas

Ah, fantasma que me espreita com flores!
Entrego-me aos teus cheiros
Que venham todos os povos!
Que venham todas as voltagens!

Eu, Edu Planchêz,
decreto-nos água
Eu, Edu Planchêz,
decreto-nos barqueiros

Correntezas, o solo de nossas sapatilhas
Talvez sejamos um daqueles homens
que deixaram Atlântida
Para clarear o ocidente

(edu planchêz
)

PÃO DOS PÁSSAROS

( para Ândrea Drigo)


A perna dança, o braço dança
e o que sobra dos pássaros também dança
Ali ela envolve na redoma das mãos
o cálice do meu rosto
solto no éter, completamente dilacerado

Ouviria oitenta vezes
ela arranhar os cabelos
daquela cítara de barro manchada

Memória dos ossos
Memória do chão

Mais de mil
Menos que zero

Bate no pão dos pássaros
com os pés atracados na Marina da Glória
São tão ourives os teus dedos
que ainda não chegaram da roça

(edu planchêz)

APÓS CONVERSAR COM A ÁGUIA BETH BRAIT



Arranco energia do fundo de minhas orelhas vicerais
A vida é vermelha
Parir centelhas plenetárias
munido de cocares e palavras de ouro

Mapeia com o giz dos pés
o país das fogueiras
diga-me em qual poema deixei
meus óculos estelares
Nenhuma insônia perturba
meus sensores noturnos

Espalmo a mão em tua vidraça
quero a lua de pitanga
pulsando em meu pênis

Marias, esteiras, estacas, navios e telhados
Meu cão dorme arcado para o leste
dessas paredes ausentes

Renata, a outra taça,
a outra cereja que provarei num cinema espiritual
ou além daqui dessas carnes-ossos

Ouviria das águas o murmúrio dos salmões
há nascidos
Muitos séculos transitam...

(edu planchêz)

REFLEXOS DE UMA COLHER


Uma cambaxirra discorre seu concerto
E Jim Morrison geme no deserto
O chá de cidreira fumega no copo de vidro
agraciado por uma sereia delicadamente estampada
em sua naturesa vítrea
galhos e folhas da mesma erva
acomodados na manjedoura, um cesto de bambu
Minha mulher acabando de acordar...
Jim Morrison agora berra: "Cinco contra um"
cinco contra mais de cem
ou nada disso e isso mesmo

Nos reserva esse dia: o sumo de todos os navios
saídos de todos os portos desde os dias dos atlantes

7h30 ou mais
Daqui não posso ver o relógio

Mirantes de um século que se despede
Minha irmã Ana inda dorme
Mãos pousadas nos pêlos do púbis
A vejo flutuando
Cabelos amarelos, pele branca rosada
rosando as bolhas de seus sonhos
Vontade de comer o que ela come

Alto falante
Bob Marley sem lei e sem espelho
para olhar a sua barba
de dar inveja a qualquer leão

Penso em mandar meus preciosos escritos
para a "Casa del las Américas" em Cuba
Bolhas de reggae nos escutam
Bolhas de Allen Ginsberg batem ondas,
onde mesmo? Deixe-me pensar...

Outras tantas histórias
se passam no meu interior ainda desesperado
(Reflexos de uma colher)
Gostaria de poder abrir
os portais de meus arquivos
para alguém disposto a me ouvir
Entulhos crocantes perturbam minhas vísceras,
é o passado agonizante de mamutes,
punhetas cheias de culpa,
ninfomaníacas deliciosas, abismos,
cavernas carregadas de silêncio e limo,
fumaças estonteantes, fêmeas suculentas,
meu ser cheio de culpas e pesares estranhos

Rocks e Blues
Canções-reggaes de Áfricas ocasionais
Platéias amadas, de olhos firmes nos meus e,
tantos são meus olhos de baleia ou pombo entretido
com grãos de milhos vermelhos

Mulheres a lamberem meu pau de poeta
Gostaria de foder todas as mulheres,
nessa e em todas as outras
milhões de tardes-noites-manhãs
Sou ainda um ser faminto disfarçado de santo
que usa coroa de Rei do Rio
Humano cercado de intra-exércitos íntimos
Há guerra! Eu sou um ser em guerra e não há como não
ser um Guerreiro da Luz

(edu planchêz)

A BARRIGA VEGETAL



Meus dedos hão de coçar
a barriga da poesia tinta-fruta
caída das bocarras do céu cinzento
Ouviria lambendo as pedras
o ronco surdo da maré dourada
das alegrias futuras
Gotas de flor escamam

(edu planchêz)

NAS ARESTAS DO REGGAE


Diante do meu sofrimento
e do de outras criaturas
acendo luzes doiradas

Não vês os leões
nos brilhos laser dos Cds de Bob Marley?

Bastante é o vento na vela da minha mãe dor

Os sinais da noite transportam
(até aqui) um samba entre aspas
Prefiro o contrabaixo africano
que se move certo e torto
nas arestas do reggae

"Os tambores da selva começaram a rufar"!
Os capitães do mato
estão soltos no meu rosto

As enguias do chão
adentram-se em meus pés
farejadores de sementes

(edu planchêz)

ZÉ CELSO



Hoje me sinto
tomado pela idade
de Zé Celso
Esse povo do breu (no breu)
reúne em si
a textura dos diamantes
Por que não se toca?

(edu planchêz)

CACHAÇA



É o álcool dela
urrando no vento
derrubando minando
a couraça da promessa que fiz ao espelho
A feitura de tua boca
é obra de Michelangelo Caravagio
Boca e cara

(edu planchêz)

domingo, 25 de janeiro de 2009

ÁLAS

(para Vanessa Valente)


Por que precisamos de amor?
Por que precisamos de beijos?

Esse é o tema descascado nessa tarde ruiva
Aqui arde um vão,
motor de arranque,
mola de músculos,
hélice-língua para citar Cazuza

Amor no osso
Amor na unha que toca pianola
em tuas vértebras

Cabelos de bronze,
às vezes de estanho

Tenho-te em meu visor humano,
mais para visor de homem
Tens pele de camurça
e dormes a ronronar com os queridos gatos...

Meu som de curar alegria quer um copo
de tuas danças
Ô abre alas que eu
quero em teu cinema
ser o lanterninha e a pipoca

(edu planchêz)

QUEM OUSARIA LER DE OLHOS CERRADOS?

para Sylvia Platz


Dentro da caldeira da vida
ouvimos as vozes das coisas,
palavras se escondem
nos troncos das árvores

Um grande alfabeto
desfila em todas as manifestações
(procura ler esse livro!)

Quem ousaria ler de olhos cerrados?
Os relâmpagos continuam
a rabiscar os céus da boca
(onde estaria a realidade, dentro ou fora?)

Letras enormes eclodem
do canto das corujas
Minha única palavra flutua
em tua frente

Dentro da caldeira da vida
ouvimos as vozes das coisas,
palavras se escondem
pelos troncos das árvores
Um grande alfabeto
desfila em todas as manifestações
(Procura escrever neste livro!)
Minha única palavra flutua

(edu planchêz)

A LUZ




A luz azul envolve
meus dedos...

As mãos de tão azuis, espelham os planetas do céu
Azul Azul Azul estou repleto - Azul Azul Azul
Tanto Azul Tanto
Cada célula do meu açucarado corpo
merece o mais intenso Azul, temer nada

Nada,
O Universo inteiro, águas

Absoluta mão de minha pele, o azulado manto voa
Nada existe capaz de nos roubar
o Azul Azul Azul Azul Azul Azul Azul Azul Azul Azul

Azul inundando os salões laqueados da cabeça
Azul muito Azul muito

A roupa da tarde tingiu-se de azul
Bons espíritos agarram jarros prateados
e nos banham nas chuvas

Estrelas na alma, eu tenho até demais
Brinquedos fabrico com meus próprios olhos:
caixinhas, casinhas brilhosas de pedras boas,
digo, elas nos servirão de abrigo
durante o desaguar de março

Comerás doces bonitos entalhados por mãos bonitas

Dentro da minha pedra azul o medo tolo vencerei
Pulsa a fulgurante chama me acalmando a partir do umbigo

Bosques para serem lambidos
Mares para nos cozinhar

O navio puxado pelas borboletas
apresenta um convés amplo
cheio de vivas voadoras
que nos pousam nas mãos e no rosto

Gorjeiam passarinhos o dia todo,
à noite a poeira cintilante das ondas
se espalha refrescando os que quiserem de amor navegar

Amo para lá das fronteiras
Para lá segue o bailado

(edu planchêz)

GATO QUADRADO REDONDO

(para Silmara)


Gato quadrado subindo em diagonal a rua
do teu corpo mais que Cortez
Meu pé de chinelo azul e branco
cor da lua marcada pelas bondades vindouras

O futuro é o sol
Eu sou o futuro

Bate fundo no solo
Bate bate que não há portas

Gato redondo pulsando em teus lábios
de redentora das noites e dias

Vê se entende a qualidade
dos meus caprichos
que sou um homem alagadiço

Dizia ser ela uma borboleta,
o vento me mostrou outras asas:
môsca ou mais que mulher,
barata vivendo em todas as camadas
daquele arco-íris instantâneo


São José dos Campos, 24 de outubro de 1997

(edu planchêz)

DAILOR VARELA entrevista EDU PLANCHÊZ




“Artista revela novas idéias para a cultura"
O artista EDU PLANCHÊZ, poeta, multimídia e agitador cultural, numa polêmica entrevista ao editor do VALE VIVO Dailor Varela, revela novas idéias para agitar a vida cultural de São José dos Campos. Edu Planchêz é artista do seu tempo e trabalha com várias visões do cotidiano, seja com recitais em pracinhas públicas, fazendo vídeo, teatro, música e outras experiências. Edu parece concordar com Ezra Pound, que dizia "a arte é uma coisa viva"


Nosso bate-papo de hoje é com o poeta "marginal" EDU PLANCHÊZ, o gênio da raça dos poetas alternativos.


Dailor Varela-

O poeta é um marginal?

Edu Planchêz-

O poeta é um homem profundamente comum. Incomuns são meus poemas que sempre propõem mergulhos no inesperado. O poeta nunca foi, e nunca será um marginal. Marginal é aquele que nega por pura indigência cultural o poeta que existe dentro de si. Marginal é aquele que está entorpecido de cultura inútil e vive preocupado exclusivamente com as aparências. Creio que tais criaturas, por pura falta de esclarecimento, se anulam & acabam anulando outros & outros & outros; aí eu entro, aí entra você, entra o Mabelle, o Gustavo Terra, o Irael, o Jim Morrison & o Gilberto Gil. Aí entra meu BUDA interior armado com o espírito do Romário. Aí eu afirmo que sou marginal, o maior de todos os marginais & grito: Renascença! Com as maiores letras possíveis. A Renascença não cristalizou-se em Michelângelo ou Miguel de Cervantes & nem tão pouco se encerrará em mim. Não tenho olhos para olhar para o Brasil que está aí fora & sim para o Brasil que posso retirar de dentro de mim, se todos agirem assim, infalivelmente haverá no presente um futuro dourado entalhado por nossos talentos. Estou farto de covardes! Daqui posso ouvir as vaias dos acomodados: vergonha é ser aplaudido pelos medíocres. A Renascença do espírito humano declara revolução! Viva o homem! Viva a nova flor que brota dessa lama humana. "Erga-se & vá à luta!" Nas palavras de Bob-Marley-Dylan-Tomas arranco o sangue da maravilhosa primavera. Não quero andar à margem do ritmo da música que move todo o universo.



Dailor Varela-


Como andou longe da cidade, quando voltou, sentiu alguma diferença na vida cultural da cidade? Para pior? Ou para melhor?

Edu Planchêz-

E muita coisa evoluiu aqui em "FLORENÇA", Beatriz não é mais a mesma, Joca Costa já não está entre os mortais, mas torno a repetir que muita coisa evoluiu: Rubens Spírito Santo montou seu ateliê e vive gravurando regado a chimarrão. Alguns novos bares, outros violeiros, outros poetas, aquelas menininhas, tornaram-se meninonas: Taí, essa cidade "tá" cheia de mulheres lindas, mulher é cultura. O teatro amadureceu, muitos atores fantásticos circulando pelos anéis da Fundação Cultural. Gente mexendo com vídeo & cinema, tendo total apoio do cineasta Diogo. O Cineclube a todo vapor exibindo coisa de fino gosto & outras nem tanto. Conheci o Rocker Edson & sua Banda Revolução Psicológica; gostei tanto que resolvi dar uma força na produção deles. Violas caipiras: Brás Cândido & outros. Professor Ivo, fazendo um belo trabalho com argila & outras matérias maleáveis. Oficinas & mais oficinas de arte pelos bairros, via Fundação Cultural, dando chance a muita gente de se descobrir. Márcio, Celso Pã, Cuca & outras gentes ensinando esse povo a domar o violão. É, realmente... A Fundação Cultural Cassiano Ricardo é uma realidade, discordo plenamente da idéia que exista uma cultura oficial & uma alternativa. As pessoas lutam tanto para conseguir as coisas, quando conseguem negam o que conseguiram & entram em conflito, movidos por suas maldades interiores; aí a voz do individualismo fala mais alto, pronto, começa-se a achar defeito em tudo: "A Fundação é isso, é aquilo"... Com certeza, encontramos infinitos defeitos mas quem tem Alma-de-Leão aceita o desafio & vai além do pessoal gira & transforma, cria novas possibilidades cristalinamente no humano. São José dos Campos vive uma intensa Revolução Humana (Cultural). Renascença do espírito humano no Vale do Paraíba, no Vale da vida a arte tem o tesão de arrancar a miséria de nossos espíritos.
Obs.: Sei que faltaram coisas & pessoas para citar, mas quis dar apenas uma pequena idéia do que está sendo o meu reencontro com a donzela São José dos Campos.


Dailor Varela-

Qual sua grande fonte de inspiração?

Edu Planchêz-

Eu, Antônio Eduardo Planchêz de Carvalho, sou a minha adorada inspiração, você o é também, sou um homem do meu tempo, do meu bairro, da minha rua, presto atenção em tudo que acontece dentro & fora do meu curioso ser. "Sin-to-ni-a", é a partícula mais importante num poeta-cantor (por que não dizer em todas as criaturas?), me sinto sintonizado com as luzes & as trevas das coisas, tenho mãos & olhos em todos os países & cidades, durmo nesta cama, mas moro no infinito, considero-me íntimo de qualquer criatura. Minha doce mãe, meu velho pai, meus irmãos, meu pequenino filho, minha avó Geninha, minha companheira, meus animais, plantas, namoradas & amigos... Vivo para as pessoas, vivo porque viver é o máximo: "Mais vale um dia a mais de vida do que toda a fortuna do universo". Adoro ser uma pessoa extremamente pública, como diz o príncipe Jorge Luis Borges: "Eu sou a caneta do mundo, a voz que atravessa os campos de batalha para ninar os homens". Denguiô (O Grande) lamentou profundamente por não poder nascer nessa época tão rica de motivos para lutar. Magnífico viver agora nesse Brasil tão talentoso, de pessoas tão fortes. A miséria maior não reside nas ruas & sim dentro de nós mesmos. Afirma meu mestre Nitiren Daishonin "que o que está fora é reflexo do que está dentro". De repente aquele cantor do Ira! diz: "Eu vejo flores em você!" Ah, Rá, Rá, Rá, Rá, Rá, Rá, Rá, ã, ã, ã, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Dailor Varela-

Publicar um livro é muito difícil? Você já tentou? Quais as maiores dificuldades?

Edu Planchêz-

Difícil é se manter íntegro diante de tantos apelos para as facilidades do "se dar bem". Se é difícil publicar um livro, digo que depende exclusivamente da Determinação do Sujeito. Se formos pensar em dificuldades, tudo é difícil; se formos levar em conta o impossível, o que dizer? Se você for bom, não faltará espaço para veicular sua obra. Se não conseguir em São José dos Campos, conseguirá no Rio, na França, no Oriente Médio, no céu ou no inferno. Tudo depende exclusivamente da coragem de quem se propõe a publicar um livro. São tantos os meios, se as editoras não dão abertura, criemos nossas próprias editoras. A iniciativa privada é uma virgem à espera daqueles que se habilitem a desvirginá-la. O Poeta não precisa de paternalismo, ele é o seu próprio pai-mãe, aliás, ninguém precisa de tal coisa, essa é a forma mais arcaica de pensar. Temos que rasgar para sempre essa idéia de que somos coitados-habitantes-do-terceiro-mundo. Um poeta que não tenha espírito de Guerreiro não é poeta. Um poeta que não lê, que não tem consciência financeira, que não admite ser criticado, deveria desistir, pois ser Poeta implica em muito mais que ser um mero escrivinhador-de-versinhos-romantiquinhos ou
reclamatórios. Se você não for para cama com Allen Ginsberg nunca perderá o cabaço mental, se você não ousar, ir além, além, muito além dos jardins-de-sua-casa, é inútil querer parir um livro.
"Os artistas deveriam determinar realizações de trabalhos que entrassem para a história da cultura do País".


Dailor Varela-


Quais os poetas que fazem a sua cabeça?

Edu Planchêz-

Caríssimo Dailor Varela, isso é pergunta que se faça??? Já que é assim, então vai: - "Animais" de São José dos Campos e de todo planeta, com profundo orgulho, vos apresento os meus Neurônios: Allen-Allen Ginsberg (Meu adorado neurônio cor-de-rosa), Manoel de Barros, Murilo Mendes, Torquato Neto, O Katito Caetano Vitorioso, Meu super Irael Luziano, Ana Cristina César, Bob Marley, Dylan Tomas, Jim-Lagarto-Morrison (Antes & Depois dele), Pedro Sumaia (Quem conhece esse bailarino?), Lara (Aqui de São José), Rubens de Almeida (Amigão, poeta fantástico ganhador do primeiro concurso nacional de poesias do Circo Voador - Rio de Janeiro), Tanússi Cardoso, Maurício Salles (Outro poeta genial lá do Rio, também), Djavan, Elizabeth Souza (Aqui de São José), Cazuza, Renato Russo, Mark Strand, Otávio Paz, Tagore (da Índia), Manoelzinho Bandeira, Jack Kerouac, Jack London, Valente Júnior (da Bahia), Flávio Nascimento (da Paraíba), Luiz Melodia, Bob Dylan, Rosa Kapila (Mãe de meu filho e ótima contista), Clarice Lispector, Vladimir Maiakowsky, Sidimil, Paulo Coelho & Cia, Mano Melo, Zé Celso, Mautner, Violeta Parra, Suzana Vargas (Rio), Daisaku Ikeda, Edna Laranja, Dante, Mauróis, Salvador Dalí (Todos os pintores juntos, não passam de uma unha do "velho" Salvador Dalí), Glauber Rocha (Cresce beleza em tudo que beijei com o ventre da música), Godard (O que dizer dessa alma oceânica?), Rimbaud (Meu menino absurdo menino), Alceu Valença, Tom Jobim, Jossei Toda, Miguel Servt, Neil Young ("Quando os sonhos vão tombando feito árvores/ Eu não sei o que o amor pode fazer"), Eric Clapton, Tom Zé, Chico Buarque, Mercedes Sosa, Garcia Lorca, Gil, Fernandinho Pessoa, Caio Fernando Abreu, Osvald de Andrade & outros & outras & outras & outros....


Dailor Varela-

A poesia é necessária?

Edu Planchêz-

"O poema é o caracol onde ressoa a música do mundo" (Otávio Paz). A poesia é a trança que liga esse mundo concreto ao mundo mágico aparentemente invisível. A poesia traz o homem de volta para ele mesmo, ou seja, esse homem que corre aturdido pelas ruas desse final de milênio está sendo chamado, a voz das florestas antigas saltitam nos versos que plasmo. Desfolho as pétalas das flores de meus-teus cabelos sobre teu corpo manchado por talões de cheques. Se as pessoas soubessem do conhecimento que é oferecido através da poesia! Poucos são os poetas; o homem, para ser poeta, precisa sangrar o tempo todo. Se queres os seios da poesia tens que abrir lentamente os livros de pedra com a ponta da língua. Tu podes montar graficamente tetralhões de supostos poemas, mas se não fores despojado, disposto às últimas conseqüências da paixão, jamais, jamais, tocará no meu sexo, a poesia. Entendo por poesia algo assim mais vivo que o sol. Pobre de ti se ousares viver árido de poesia. Nunca terás uma boa digestão se não te alimentares com o sumo da poesia absoluta que as flores te oferecem agora.


Dailor Varela-

O que é ser poeta para você?

Edu Planchêz-

Transcrevo aqui, dizeres do Pássaro Reinaldo do Sá: "Para ser poeta, é necessário suar tanto quanto um cavador de valetas, daqueles que encurvam as costas no sobe-e-desce da picareta, centenas de vezes por dia..." A princípio só posso falar da minha experiência. Deixe-me pensar... Na antigüidade, os poetas eram mais importantes que os faraós... (Acho que "tô" enrolando!!!). Será que tenho consciência do significado de que é ser um poeta? Vivo no tempo dos homens mas, na verdade, trago comigo o tempo das águias & das borboletas; ser poeta para mim é ser guardião do belo. "Os artistas, como os sábios, possuem os olhos do Buda - Se não forem os do Budha, pelo menos os do Bodhisattva - Com a condição de que eles não se limitem a satisfazer a inteligência ou a sede de criação desses sábios e desses artistas mas que procurem, realmente, livrar os homens de sua miséria e de suas ilusões" (Daisaku Ikeda é o autor dessas últimas palavras que tomo como minhas).


Dailor Varela-

O que você fez, por onde andou?

Edu Planchêz-

Fiz, faço, andei & ando. Estive em lugares, muitos lugares, em muitas pessoas, casei & descasei muitas vezes. Pari tantos poemas, mas tantos, que não caberiam aqui nesta sala. Se uníssemos todos os nutritivos versos que fiz, poderíamos com absoluta certeza darmos muitas voltas entre a Terra & o Pai Sol; creio que nem Camões escreveu tanto assim. Durante esses últimos 14 anos, vesti-me de homem-experimento-cavalo-da-poesia-real. Meu quartel general, o Rio de Janeiro, mais precisamente em Santa Tereza. Com a ponta do compasso fincada na cidade-mar pude evoluir & desafiar-me à vontade, muito Sol-posto 9-Ipanema-Barra-da-Tijuca. Participação em muitos grupos-teatrais-poéticos:
“Gang Pornô”, “Passa na praça que a poesia te abraça”, “Celebração ao Renascimento da Poesia” & outros. Montei & escrevi algumas peças teatrais. Muitas experiências com a poesia. Se publiquei alguma coisa? Sim, em revista & jornais literários, libretos confeccionados & vendidos por mim mesmo.
Os recitais sempre foram o meu forte, tanto que os levei para a música, fundei uma Banda (As Chaves), onde assumi o posto de vocalista, minha poesia caía como luva nos acordes das guitarras & dos violões. Nossos shows eram uma espécie de recital-ritual-teatral com passagens por uma infindável gama de ritmos, a música do Oriente se misturava ao reggae da baixada fluminense, o Rock inglês assumia o papel da chuva & ia inundando as almas dos presentes, que eram dezenas, centenas & até mesmo milhares. Conheci aos olhos do meu Deus & os chifres do meu cramulhão, o sexo & o veneno, a paz do gênio & a miséria dos loucos. Ouviste falar do caos, meu nobre Dailor? A grande noite da alma existe, eu a encontrei no apogeu de meus limites. Sobrevivemos: São José dos Campos, estou de volta!!!!